Clube Good Books de fevereiro: abordar a depressão com humanidade


Em fevereiro, lemos um livro da autora que já rendeu imensos leitores: Colleen Hoover.


A Colleen escreve sobre os mais variados temas e até já escreveu um thriller!


A Ilusão de Merit é um romance YA (Young Adult) que tem como tema principal a depressão, com alguns trigger warnings, como molestação e tentativa de suicídio.



Eis a sinopse:


«Nem todos os erros merecem ser punidos. Por vezes, merecem apenas perdão.»


Merit Voss tem uma vida pouco normal. Vive numa igreja reconvertida com uma família disfuncional e pouco ortodoxa: a mãe, sobrevivente de cancro, ocupa um quarto na cave, o pai é agora casado com a antiga enfermeira da mãe, o meio-irmão mais novo não pode comer nem fazer nada que seja divertido e tanto o irmão mais velho como a sua irmã gémea, Honor, são a imagem absurda da perfeição. E Merit sente que nunca será assim.


Merit coleciona troféus que não ganhou e segredos de família que é obrigada a guardar. Numa visita a um antiquário em busca do próximo troféu, Merit conhece Sagan, que logo a deixa completamente desarmada e com um novo brilho nos olhos - até ela perceber que ele é inalcançável.


Cansada de se sentir invisível, e cada vez mais mergulhada no abismo, Merit decide acabar com a ilusão da família perfeita e revelar a verdade há tanto tempo escondida. Mas não estará Merit também a esconder a verdade sobre si mesma?


ATENÇÃO: A PARTIR DAQUI HAVERÁ MUITOS SPOILERS!



A Ilusão de Merit não foi um livro fácil de começar. Percebemos que imediato que a Merit é uma personagem solitária e as primeiras 80 páginas não explicam a fundo o que se passa de tão misterioso naquela família sombria.


Na verdade, passa-se muita coisa. À medida que vamos entrando no livro, as personagens vão desenterrando vários segredos, criando outros tantos, e percebemos que estamos perante uma família profundamente disfuncional, com várias feridas e traumas que a tornaram naquilo que vemos.

No centro do enredo temos a Merit, que acaba por ser quase sempre a primeira a descobrir um novo segredo, o que a torna ainda mais sombria. Porém, é aqui que podemos começar a criar alguma empatia pela personagem.


Há muita coisa recalcada na nossa família.

À medida que acompanhamos a Merit neste caminho, começamos a perceber que o isolamento que impôs a si mesma é uma forma de se proteger. Todos os membros daquela família lhe devem algo, ou assim julga ela. O título do livro em português é diferente do título em inglês (Without Merit) e adequa-se perfeitamente a esta linha de visão porque percebemos que, de facto, o que a Merit sabe, ou acha que sabe, é apenas a sua perspetiva e até se trata de uma personagem bastante impulsiva a tirar conclusões precipitadas.


Reconhecer que este é o primeiro abraço que me dão em muitos anos faz-me chorar ainda mais.

Merit é uma personagem que vive em constante negação e o seu modo de viver (faltar às aulas, ter padrões de sono desregulados) transmite a sensação de impotência total perante o que a vida lhe atira para cima.

Por isso, não temos aqui a personagem estereotipada que sofre de depressão: ela não passa o dia todo a dormir (mas dorme imenso), fala com pessoas (nomeadamente a sua família) e tem emoções bastante fortes, chegando a magoar verbalmente sempre que se sente atacada.


Sei que foi há muito tempo, sei que odiaram descobrir algo tão terrível sobre o Utah, mas que é da compaixão por mim? Sou assim tão detestável que não sentem qualuer compaixão pelo quanto aquele incidente me afetou?

É num desses momentos em que se sente atacada pela sua própria família, que tenta o suicídio. Arrepende-se logo de seguida, procurando ajuda. E encontra uma família que, ainda que não inteiramente disponível, está disposta a fazer tudo por ela, incluindo o pai, que é uma figura tão importante para Merit. Tratou-se de um relato bastante humano de uma família que é apanhada completamente desprevenida com a situação.


Só queria que gostasses de ti mesma como eu gosto de ti.

Aqui vemos uma viragem na narrativa: a negação de Merit perante o que lhe aconteceu. Merit não nega o acontecimento, mas desvaloriza, mostrando que é mesmo membro daquela família (que costuma tomar esse mesmo comportamente perante situações difíceis). Porém, temos Sagan, que se torna uma grande âncora de realidade, mostrando-lhe que a tentativa de suicídio vai ser tratada com toda a atenção que merece e que Merit também deve fazer o mesmo.


Descobri que a depressão não significa forçosamente que uma pessoa se sinta desgraçada ou suicida o tempo todo.

Não há romantização do suicídio e vemos a personagem a receber ajuda. É um fator que considero de bastante importância quando este tema é abordado nos livros: é preciso mostrar ao leitor que há esperança e que há pessoas no mundo que jamais ignorariam um assunto tão sério.


Não é com os problemas que as pessoas ficam chateadas tanto tempo. É com o facto de ninguém ter a coragem de dar o primeiro passo e falar dos problemas.

O livro termina onde devia terminar: com Merit a assumir que tem uma doença mental e a procurar ajuda profissional. Vemos Merit com a sua família (que também precisa de terapia) e percebemos que, afinal, há esperança.


A paz não chega a todos da mesma forma.

Tal como aconteceu com o Isto Acaba Aqui (que tem como tema principal a violência doméstica), fechei o livro sentindo paz pela personagem, sabendo que a sua história não terminou, que está apenas a começar uma jornada que será diferente. A mensagem que a autora queria deixar sobre um tema tão delicado foi transmitida com sucesso, o que permitiu saborear o livro pelo que é (a sua história) e fazer o leitor refletir sobre o tema.




Escrito por: Livreira Ana Teresa

Licenciada em Tradução pela University of Westminster (Londres), ama livros desde muito pequena.


O seu género literário preferido é Fantasia e YA. Agradece todos os dias pela trilogia ACOTAR (A Court of Thorns and Roses), de Sarah J. Maas, e pelo mundo de Shadowhunters, de Cassandra Clare, estarem presentes na sua vida.



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