Clube Good Books de janeiro: um erro de casting


Em 2021, haverá uma novidade no blog: opiniões sobre os livros lidos para o Clube Good Books e para o Blind Date with a Book!

E este é o primeiro artigo!

A Menina dos Doces foi lançado em novembro de 2020 e, tendo já lido As Nuvens de Hamburgo do autor (que também foi um dos livros do Clube), coloquei-o como opção de votação para lermos em conjunto em janeiro. Os livros não podiam ser mais diferentes, apesar de as personagens principais terem quase a mesma idade e haver um mistério que devem desvendar.



Eis a sinopse:


Mariana, uma jovem curiosa que acaba de entrar na Universidade de Aveiro. Uma moradia pertencente ao tio que mal conhece. Uma caixinha de madeira envernizada num quarto cor-de-rosa que esteve fechado durante mais de quinze anos.

É assim que Mariana descobre as cartas deixadas pela sua falecida prima, Liliana. A família nega a existência da prima e recorre a mentiras e abusos de autoridade para a fazer largar o assunto. Contudo, Mariana vai conhecendo a prima através dos escritos que ela deixou, descobrindo que têm mais em comum que o aspecto [sic] físico. No entanto, desenterrar este segredo familiar tem um preço.

Estará Mariana pronta para enfrentar as consequências?

ATENÇÃO: a partir daqui haverá muitos spoilers!



A Menina dos Doces está bem encadeado no início e no fim, mas o meio do livro é uma sequência de acontecimentos quotidianos da Mariana que não aumentam o suspense nem levam a personagem a descobrir algo de relevante sobre o desaparecimento misterioso da sua prima. Na verdade, é nestas páginas que Liliana assume um pouco mais a narrativa: as suas cartas são o que move o leitor a ler mais.


Nas cartas que Liliana deixa, escritas para o pai as ler, vemos vários temas abordados que foram explorados com o seu devido cuidado: o sentimento de abandono, a solidão e os pedidos de ajuda que são feitos em mais do que uma ocasião, jamais respondidos, e o bullying na escola por parte de colegas e até alguns professores. São temas que foram retratados tal como são e que o autor conseguiu transmitir a sensação de abandono total que Liliana sentia.

As personagens familiares são personagens-tipo: temos os pais prepotentes que não compreendem nem querem ouvir a adolescente, e a avó que, apesar de também ter alguma rigidez, é a pessoa mais aberta a Mariana.

É com a avó que descobrimos o que aconteceu a Liliana, de uma maneira que considerei anticlimática por dois motivos: em primeiro lugar, não houve qualquer suspense, digamos que houve um "deslize" por parte da personagem, o que foi um infortúnio porque aquela família tentou esconder durante meses o que realmente tinha acontecido; o segundo motivo foi porque tinha colocado aquele desfecho em hipótese (a minha outra teoria, que foi claramente inventada pelo meu cérebro Whovian, seria a Liliana ter caído acidentalmente num portal interdimensional).

Os diálogos entre as personagens, especialmente entre a Mariana e as suas novas amigas são um pouco constrangedores e não acrescentam muito à narrativa, como por exemplo:

Mariana: "(...) Quando é que vais deixar de ser parva?"

Inês: "Quando tu admitires que tens um fraquinho por ele."

Mariana: "Vá, pronto. (...) Admito que tenho um fraquinho por ele, estás contente?"

Inês: "Bastante. Agora que admitiste, tens de começar a agir como tal!"

Mariana: "Como assim?"

Inês: "Se ele te mandar uma mensagem, por exemplo, tu não vais só responder, vais corresponder. Deixa as coisas avançarem! (...) Prometes?"

Mariana: "Não prometo nada! (...)"

Inês: "Chiça, que tu hoje estás impossível!"

Mariana: "Eu?"

Inês: "Não, a minha tia. Vai é buscar a torrada antes que fique fria. Trata bem da tua convidada que não arranjas melhor."

Até podia passar por uma brincadeira, claro, mas temos aqui um exemplo de peer pressure. A Inês é uma personagem que, apesar de se dizer amiga, não acrescenta relativamente grande coisa à narrativa. Tem a tendência de dar opiniões da vida de Mariana e, quando esta quer aprofundar o mistério que é Liliana ou lhe pede conselhos que não tenham a ver com a sua nova dieta vegetariana, foge ao assunto, impedindo a narrativa de avançar, especialmente importante na segunda parte do livro em que falta algum avanço ao enredo para Mariana descobrir mais coisas acerca das cartas.


A última vez que vemos Inês é num exemplo de peer pressure, que não chega a ser abordado a fundo:


Bela: "Vamos beber alguma coisa?"

Inês: "Estou contigo!"

Mariana: Eu não sei... (...)"

Inês: "Anda daí e nem pensas que te escapas. Hoje estás por minha conta! (...)"

Mariana: "Mas..."

Inês: "Cala-te e mexe-te.

Sem lhe pedir opinião, Inês pediu um copo com licor para Mariana. Ela agarrou o copo e franziu o sobrolho."

Mariana: "Sabes bem que eu não me dou com a bebida..."

Inês: "Disparates, tu tiveste foi um mau começo. Prova, se não gostares não há problema."

Uma páginas depois...


"O maior problema era se deveria confiar em Inês do mesmo modo. Percebeu que não eram tão parecidas como julgara, a amiga encaixava muito melhor nos ambientes noturnos."

E é assim que a Inês sai de cena. Não há mais nenhuma abordagem mais esclarecedora, além de ser bastante discriminatória em relação a Inês. É verdade que a personagem nunca foi, de facto, uma amiga, mas o facto de gostar de coisas diferentes não pressupõe de imediato a crítica negativa inerente com a expressão "ambientes noturnos".

Recentemente, reparei que existem imensos livros em que a discriminação, seja ela qual for, costuma passar despercebida quando não lidamos com ela constantemente e está aberta a interpretação porque cada um tem experiências diferentes e o limite de cada um é profundamente pessoal (somos um conjunto de experiências, não é verdade?). E está tudo bem! O que importa é cada um fazer o seu trabalho, anotar e informar.

Dito isto, encontrei alguns excertos/cenas que podem levar à reflexão:


"Lançou um olhar, reparando que os olhos cor-de-avelã lhe observavam o decote.

A descontracção [sic] com que o fez deixou-a zangada. Quis gritar com ele."

Umas páginas depois...

Rui: "Sabes, eu gostei de ti desde o primeiro momento que te vi."

Mariana: "Eu sei, bem vi que eras um especial fã do meu decote – provocou-o, ensaiando um ar sério."

Rui: "Tens de aceitar que eu sou homem. (...)"

Mariana: "Mas isso agora é desculpa para tudo, incluindo a parvoíce crónica?"

Rui: "Calma, calma."

Mariana: "Não vês que eu estou a brincar?"

Há aqui uma série de questões que vale a pena refletir, tendo em consideração a sociedade em que vivemos de momento, que almeja a igualdade, que sublinha que comportamentos como olhar para o decote de mulheres desconhecidas não é um comportamento normal. Neste caso em concreto, a nossa personagem principal sente-se desconfortável, mas quando é possível mostrar o seu desconforto, diz que estava a brincar. Também podemos apontar um problema para o Rui: não pede desculpa, usa uma piada fraca e que desrespeita por completo os homens em geral.


Creio que perdeu-se aqui uma excelente oportunidade de abordar o assunto porque, simplesmente, desvalorizou-se um comportamento errado.

Mariana: "Isto aqui é bonito!"

Rui: "Bonita és tu!"

Mariana: "Tens de ter mais imaginação nos elogios que me dás!"

Rui: "Ei!"

Mariana: "Ei, nada, não podes estar sempre a dizer a mesma coisa e esperar que isso chegue!

(...)"

Rui: "Eu gosto do teu sentido de humor!"

Mariana: "Não era uma piada...

Seguiu-se um momento de silêncio pesado."

Mariana: "Também não precisas de ficar casmurro, eu só estava a tentar ajudar."

Este namoro, um instalove que estava condenado desde o início, tem este género de discurso algumas vezes.

Aponta-nos para um tema que também é falado: a violência no namoro. A violência no namoro não é só bater no/a namorado/a ou obrigar o/a parceiro/a a vestir uma certa roupa. A violência no namoro também é isto: manipulação do comportamento para levar a outra pessoa a agir ("ensaiando um ar sério"), palavras fortes, que humilham a outra pessoa, e com um pouco de gaslighting à mistura, dando a volta ao problema de tal forma que a vítima chega a pensar que é a culpada.

Felizmente, o livro não cai no estereótipo da vítima ser uma mulher, mas será que é relevante quando o que está em cima da mesa é este comportamento num livro que está categorizado como infanto-juvenil e que não aborda o tema com o devido cuidado?

"Mas que raio, tu és mais insensível que um homem!"



"Não sei como é que os homens nunca percebem nada."

"Era uma comédia romântica, o género favorito de Mariana. Gostava de filmes que não a fizessem pensar."

"Oh, querida, não fiques à espera para sempre... Sabes, nós mulheres temos um prazo de validade."

"Vou tentar não pensar mais nisto, pode ser que isto se resolva por si mesmo. Se calhar é só uma crise existencial ou um drama feminino. Espero bem que sim e que não seja um problema grave."

Estes excertos são o que são. Quando inseridos num parágrafo, numa sequência, podem passar despercebidos para alguns/mas, mas juntos mostram que, ao longo de todo o livro, houve uma certa desconsideração em tomar atenção que todas as palavras e todas as frases têm impacto e que, no conjunto, formam o livro e passam a mensagem. The devil is in the details.


Generalizações como “os homens nunca percebem nada” ou “mais insensível que um homem”, por exemplo, são erradas e mais do que denunciadas.

As mulheres não têm um prazo de validade, nem a brincar nem a sério (isto vindo de uma personagem feminina é ainda mais grave).

O drama feminino só foi colocado aqui porque trata-se de uma jovem e não de um jovem. Fica por responder o que será, de facto, um drama feminino, mas não devemos ficar preocupados/as porque, afinal, não é um problema grave. Será que um drama masculino é mais grave?

Nem todas as comédias românticas caem no estereótipo de filmes que não puxam a reflexão e o pensamento, e aqui temos mais uma generalização: mulheres gostam de comédias românticas. Qual será o contrário desta generalização? Fica a questão no ar.


São temas que foram indevidamente abordados porque, sempre que são colocados na narrativa, não há uma única frase que os repreenda, que mostre um pouco de consciência por parte das personagens em dar a entender que tal linha de pensamento está errada para os dias de hoje. O livro não tem o distanciamento histórico que necessita (ou seja, não se trata de um romance histórico) para incorporar este discurso e não o abordar com a dignidade necessária.

Um outro fator que considerei bastante relevante é o tema do suicídio. No mesmo livro, assistimos a duas tentativas de suicídio bastante diferentes. Uma delas, é concretizada. A Menina dos Doces está categorizado como um infanto-juvenil (porque o nosso mercado ainda não criou uma secção YA... para quando, por favor?!) e tem um tema que pode fazer levantar algumas campainhas nas cabeças dos pais. O livro aborda os dois suicídios de uma maneira bastante crua e real.

O tema dos trigger warnings é, só por si, bastante polémico, mas considero que teria sido benéfico não só colocar uma nota no fim do livro com uma linha de apoio, como também não deixar as palavras "inspirado em factos reais" na badana do livro sem mais explicações. Não há polémica aqui: é uma responsabilidade ter um livro publicado "inspirado em factos reais" que não apoia um jovem que vá ler e identificar-se com os sentimentos da Mariana e da Liliana.

Nota finais:


O Clube Good Books procura encontrar bons livros, sejam eles de ficção ou não-ficção, que nos suscitem bons momentos de leitura, que nos façam esquecer as horas, que nos façam viajar e, acima de tudo, que nos tragam uma mensagem futura que ficará connosco pelos melhores motivos.


O livro desejou abordar imensos temas ideológicos em pouco mais de 300 páginas, acertando nalguns pontos, mas falhando redondamente em muitos outros, o que deixou uma sensação de ter lido um primeiro rascunho e não um livro completo. O enredo não é particularmente forte porque perde-se na segunda parte do livro, há demasiadas generalizações e personagens-tipo, o que o torna repetitivo. Muitos dos temas que são abordados hoje em sociedade foram atirados para o livro e não foram explorados, impedindo uma conversa construtiva do assunto porque não há qualquer ponto de vista das personagens. Se o livro desejava passar alguma mensagem construtiva sobre estes temas, não o conseguiu, pelo contrário, foi conivente com estes comportamentos que, infelizmente, ainda são vividos por muitos seres humanos.


A Livraria Good Books procura boa literatura, especialmente vinda de autores portugueses, mas não apoia livros que normalizam a discriminação.


Foi, de facto, um erro de casting.

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