Nostalgia na Releitura



Para muitos leitores, a releitura do seu livro favorito é quase uma tradição. É uma fuga ao stress do dia-a-dia, uma reentrada numa aventura que eles sabem, ser capaz de lhes dar força e paz. Transportando-os para um mundo que amam. Quer existam novos livros para ler, se a alma precisar, de volta aos livros favoritos esses leitores vão.


Eu sou uma desses leitores.


Recentemente decidi ir à procura daquilo que está para além do ato de reler, para além da simplicidade de fugir da realidade cruel que vivemos. Decidi iniciar esta jornada e compreende que mais sentimentos uma releitura nos provoca. Para tal, pela primeira vez em quinze anos, peguei no meu primeiro clássico e livro favorito da minha infância: “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias” de Júlio Verne.


Determinada e entusiasmada, lancei-me de cabeça a esta aventura, deixando-me ser transportada para um mundo que claramente não visitava à mais de uma década. ‘Determinação’ e ‘entusiasmo’, talvez dois sentimentos que não associamos à releitura, mas se estivermos a falar de um livro favorito cuja história não nos relembramos muito bem, apesar do nosso coração ficar feliz pelas memórias e da nossa mente saber que é um livro favorito, então ‘entusiasmo’ é o que sentimos por podermos voltar a pegar no livro.


Entusiamo acalmado e a primeira página lida, deparei-me com um sentimento de ‘compreensão’. Quanto mais páginas li, capítulo atrás do capítulo, a Jéssica Adulta compreendia o porque da Jéssica Criança ter adorado o livro. Se chamar as minhas memórias, irei sentir e ver entusiasmo, curiosidade e maravilha, no entanto nunca havia refletido verdadeiramente no porquê por detrás desses sentimentos.


Compreendia finalmente o porquê de ter ficado maravilhada com a história. A aventura de Phileas Fogg e Passepartout era tão incrível, que era impossível uma criança não se sentir maravilhada com a viagem. Uma aposta que gerou uma viagem à volta do mundo, um assalto a um banco que ocorreu antes da dita aposta, um detetive que tenta de tudo para atrasar Phileas Fogg, por acreditar que ele é o ladrão… Viajar de barco, comboio e até mesmo de elefante!


‘Maravilha’ seria o mínimo que uma criança sentiria. Mesmo em adulta, e passados quinze anos, ler esta aventura ainda me faz sonhar. Explodindo cores, sons e cheiros na minha mente, descobrindo mais sobre outras culturas e sobre o passado, fazendo-me rir com Passepartout e surpreendendo-me com cada pormenor dado, principalmente sobre Phileas.

O personagem principalmente neste livro de Júlio Verne é apresentado ao leitor como um excêntrico, calculista, determinado e que gosta de manter uma rotina na sua vida, cumprindo horários. Todavia, quanto mais a história se desenrola, mais o leitor compreende que existe muito mais naquele personagem. Para uma criança, estranha personagem era interessante. Para um adulto, confesso que, muito provavelmente, mais curiosa fiquei.

Até à última página os sentimentos foram saltitando. Uns presentes e outros passados, até chegar a um ponto que ambos se fundiam. Agora, sentada em frente do computador, refletindo sobre toda a jornada, chego à conclusão de que aquilo que efetivamente sempre acreditei ser um dos porquês da releitura, é efetivamente a sua essência.


Quando relemos um livro, as passadas leituras emergem do nosso subconsciente. As memórias e sentimentos estão sempre de mãos dadas, sendo obvio que presente e passado se misturaria a dado momento. Quando relemos, a intenção é efetivamente sentirmos o mesmo que em outras leituras, é sentirmo-nos bem, é revivermos aquela aventura que tanto amamos. Ao pegarmos no nosso livro favorito e o abrirmos, estamos ativamente a seguir o caminho da nostalgia.


‘Nostalgia’ é algo que todos sentimos, tal como ‘Saudade’. Para mim, nostalgia é um regresso a casa, uma viagem que traz sentimentos passados, bons ou maus, que me leva ao um momento anterior na minha vida. Se pensarmos bem, a releitura é o mesmo. Relemos para volta aquele mundo que adoramos, uma história que nos ajudou e talvez nos tenhas protegido. Relemos os nossos livros favoritos porque eles são o nosso porto seguro, e nos trarão sempre boas recordações.


No final de ler, senti-me nostálgica. Talvez tenha sentido nostalgia desde o primeiro instante assim que li “Capítulo I”, e que tal sentimento se tenha apenas mascarado de todos os outros sentimentos e emoções. A verdade é: sabia que mais cedo ao mais tarde me sentiria assim, que me apercebesse ou não.


Para mim, a Nostalgia é o núcleo da Releitura. E todos nós, em qualquer momento da nossa vida, precisamos de nos sentirmos seguros, e regressarmos a um mundo que é para nós como que uma segunda casa. Precisamos de pegar nesse livro e viajarmos de volta ao passado, de volta a um mundo imaginário que sempre estará para nos acolher. A releitura é um coberto reconfortante de sentimentos.


Escrito por: Jéssica Reis

Jéssica Reis nasceu a 11 de outubro de 1994, na cidade de Leiria. A escolha do seu nome avizinhava-se como um presságio para a grande paixão que atualmente a prende e agarra aos livros, pois foi inspirado na Jessica Fletcher.

Sendo a terceira geração de amantes de livros no seio da sua família, desde cedo que se deixava transportar para outros mundos enredada nas palavras dos grandes escritores. Não demorou para que as suas próprias ideias ganhassem contornos, ainda que suaves, e pequenas histórias começarem a surgir.

Tem atualmente um blog onde partilha com o mundo as suas opiniões dos livros que vai lendo, assim como alguns contos que vai escrevendo.

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